Formação da taxa de juros no Brasil

Samuel Pessôa

Folha

A tabela apresenta para diversos períodos a taxa de juros do mercado interbancário brasileiro desde 1995 até junho de 2026.

Captura de tela 2026-08-02 113437.png

Como sabemos, os juros no Brasil são elevados. Mas por detrás desta caracterização, temos uma razoável variação entre períodos. Em particular, há dois degraus de quedas substantivas. A mudança do regime cambial, no início de 1999, e a acumulação de reservas, a partir de 2005.

Quando o câmbio era fixo havia risco de depreciação cambial, e o juro interno incorporava esse risco. Após a flutuação do câmbio, tínhamos dívida indexada ao dólar e poucas reservas. O risco país era elevado e o juro interno incorporava esse risco.

Após a acumulação das reservas houve forte queda do risco país. Por exemplo, o CDS de cinco anos, que era de 2.400 em 2002, caiu para 225 em 2006 e hoje se encontra abaixo de 130. A queda do risco país fez com que o equilíbrio entre oferta e procura no mercado doméstico de bens e serviços passasse a ser o grande determinante da taxa básica real de juros.

Há que se distinguir dois regimes: quando o gasto primário cresce acima do crescimento da economia e quando o gasto primário cresce conjuntamente com a economia.

O leitor atento pode avaliar que a diferença de 1,1 ponto percentual entre o período 2015/2019 e o período 2006/2014 é baixa, dado que no primeiro período a taxa de crescimento do gasto primário foi 3,6 pontos percentuais por ano acima do crescimento da economia e no segundo período foi igual. Ocorre que, na segunda metade do primeiro período, primeiro mandato de Dilma, houve represamento da inflação de administrados e do câmbio, e juros artificialmente baixos.

No período posterior houve a reversão desses fatores, o que contribuiu para que os juros tivessem sido maiores. O desemprego elevado de 2015 até 2019 foi o preço para vencer a inércia inflacionária produzida no período anterior.

Com essas ressalvas, os dados da tabela sugerem que, se conseguirmos navegar alguns anos com gasto primário crescendo junto com a economia, os juros reais convergirão para 3% ao ano.

Link da publicação

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.


ESCRITO POR

Samuel Pessôa

CDPPLer mais

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Resposta ao crime tem de ser regional

Ilan Goldfajn
·

Deixai aqui todas as esperanças

Alexandre Schwartsman
·

Ex-diretor do Banco Central critica acomodação com crescimento de 2% do PIB

CDPP
·

Conversa com o ministro Renato Janine Ribeiro

Samuel Pessôa
·
Podcast

Podcast do CDPP