Fundos devem crescer no Brasil, mas precisam superar fraudes como do Banco Master, diz Armínio Fraga

CDPP

Ex-presidente do Banco Central vendeu recentemente sua gestão de fundos multimercados, mas mantém visão positiva para a indústria

Estadão

A Gávea, gestora ligada ao ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga, marcou época ao lado de outras casas do Leblon, no Rio de Janeiro. Conhecidas pelos fundos multimercados macro, que buscam retorno a partir da leitura do cenário econômico, essas gestoras tiveram anos estelares, mas passaram a alternar resultados bons e ruins na última década.

O cenário ficou mais difícil com um dos maiores ciclos de juros elevados em décadas. A Selic, que estava em 2% ao ano no início de 2021, vem se mantendo em dois dígitos desde então.

Em reflexo, o fundo Gávea Macro ficou abaixo do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), principal referência da renda fixa, nos últimos três anos e meio. O ativo entregou retorno equivalente a 53% do CDI até julho deste ano, depois de render 22% do CDI em 2025, 70% em 2024 e 83% em 2023.

Nessa toada, há cerca de um mês, a Gávea decidiu vender sua operação de fundos multimercados, que soma R$ 2 bilhões, para a gestora de fundos do Bradesco – confira aqui. Antes disso, já havia encerrado sua área de private equity (investimento em empresas que ainda não são listadas em bolsa). Atualmente, a casa gerencia apenas investimentos residuais, mas diz não ter planos de fechar as portas. Para a gestora, esse mercado mudou e perdeu atratividade.

Em conversa com o E-Investidor, Armínio Fraga dá sua perspectiva sobre a crise no setor de fundos.

E-Investidor - Qual a extensão da crise do setor de fundos?

Armínio Fraga - O veículo fundo, em geral, é importante para o sistema administrar melhor seus riscos. Contudo, estamos vivendo uma conjuntura adversa para o setor. E acho que ela é conjuntural. Tem a ver com o custo do dinheiro no Brasil, com incentivos equivocados para determinados produtos, que considero uma barbaridade do ponto de vista regulatório. A dívida pública também não tem espaço para continuar aumentando.

O senhor mencionou “incentivos equivocados”. Qual é o problema?

Subsídios de qualquer natureza precisam ser muito bem justificados. Eu não vejo razão para subsidiar um monte de setores. Por que agronegócio, imobiliário e infraestrutura precisam disso? Pode existir um caso, um projeto de desenvolvimento regional, que talvez até justifique. Algo genérico, como é atualmente, não faz sentido.

O mercado também não passa por uma crise de reputação, depois de tantos escândalos?

Há no ar questões que precisam ser respondidas sobre o papel dos fundos em casos como o do Banco Master e outros episódios recentes, que misturam suspeitas de fraude e corrupção. Não cabe culpar o veículo.

Quando eu estava no Banco Central, costumava fazer uma comparação com o mercado de câmbio: um bandido assalta um banco e foge de motocicleta e isso não significa que a motocicleta seja a culpada. O mesmo vale para os fundos. É preciso entender o que aconteceu e quem foi responsável.

No caso Master, qual foi a falha?

Foi uma falha geral. Os papéis do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) precisam ser explicitados. Isso está ocorrendo. Tanto o Banco Central quanto a CVM estão fazendo a autópsia do caso. Quando o Banco Central se depara com o balanço de um banco que tem pouca ou nenhuma transparência, ele tem obrigação de abrir os fundos. E, se abrir um fundo, tem de abrir todos. Afinal, era um caso muito falado e grande. Se fosse necessário acionar a CVM, o BC deveria ter feito isso.

Apesar desse ambiente, o senhor acredita que a indústria de fundos tende a continuar crescendo no Brasil?

Sim, porque permite flexibilidade. Isso não significa que necessariamente vai acontecer e o desenvolvimento precisa vir acompanhado do amadurecimento do mercado. Tudo o que está acontecendo faz parte desse processo.

A indústria de fundos é uma das maiores do mundo. Tem patrimônio no Brasil para tanto?

A Europa é mais bancarizada, enquanto os Estados Unidos são mais ligados ao mercado de capitais. Acredito que o Brasil esteja no meio do caminho.

O banco tipicamente não capta recursos de longo prazo, então o mercado de capitais presta um serviço importante ao financiar investimentos com prazos mais longos. No setor imobiliário, por exemplo, o crédito pode ser concedido inicialmente por um banco, mas muitas vezes acaba sendo securitizado e distribuído para investidores. Esse é um dos papéis importantes que o mercado de capitais e os fundos podem desempenhar.

O senhor vai sair de vez da gestão de terceiros? Quais os próximos passos?

Tenho uma ou outra ideia na cabeça, mas nada concreto, e também não tenho muita pressa. Tenho dois institutos que preciso tocar.


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