Metamorfose da economista

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Após carreira na economia, Eliana Cardoso relata os desafios de assumir a identidade de escritora de ficção

Valor

Deixar de dar aulas e de se apresentar como economista, depois de uma carreira exitosa, para se tornar uma escritora de obras de ficção exigiu muito de Eliana Cardoso. “Essa transição depende de uma etapa difícil. Depende da autorização interior para assumir uma identidade que nenhum diploma confere. Perto dos 70 anos, depois de 40 anos de uma bem-sucedida carreira como economista, tentei mudar de identidade”, explica.

Foi um rompimento da vida que levava então e que a levou a reflexões mais aprofundadas: “Talvez a questão mais interessante seja se a ruptura tardia representou apenas uma mudança de profissão ou uma tentativa de responder às minhas, às suas, às nossas angústias de todos os dias: Quem sou? Qual minha melhor maneira de existir no mundo?”

A troca de profissão se tornou um desafio, na medida em que ela teve inicialmente dificuldades para escrever obras de ficção depois de muitos anos só produzindo obras de economia. Eliana adotou uma série de práticas para vencer esses problemas, como o costume de tentar escrever quase todos os dias.

Ser escritor, diz, é como outras profissões - você precisa aprender a fazer. Exige treinamento, não é talento puramente. Depois de anos, ela acha que hoje “tem um jeito de escrever”. Aprendeu a ser escritora. Na universidade, ela escrevia, mas eram textos técnicos, analíticos, muito racionais; precisou aprender a escrever ficção com uma mudança radical na linguagem. Depois de 12 anos, ela comenta que tem que aceitar que é escritora porque é isso que ela faz.

Como parte desse propósito, ela também se inscreveu em curso de escrita criativa (que não concluiu) e, mais recentemente, passou a integrar um grupo de escritores que compartilham seus escritos e fazem avaliações uns dos trabalhos dos outros. Às vezes, os comentários se tornam críticas duras. Tomar parte desse grupo tem ajudado muito, afirma, pelas análises e sugestões que recebe dos seus pares, como deixar de escrever o que deve ser imaginado pelo leitor.

Ao criar um personagem, ela aprendeu que não precisa descrevê-lo imediatamente, ele vai se revelando aos poucos conforme o andar das ações, exemplifica. Seu livro mais recente, de número 4 entre os de ficção, foi escrito desta forma, com as críticas dos outros escritores. Outra pessoa que a ajudou muito nesse sentido foi uma de suas irmãs, a também escritora Ângela Lago, para quem Eliana lia trechos das suas críticas literárias - às vezes, a irmã respondia que ela tinha que reescrever o trecho porque “não estou entendendo nada”.

Uma questão bem prática também surgiu nessa nova fase da vida - como se apresentar, como economista ou como escritora? “A identidade de economista é mais fácil de usar do que a de escritora. Para ser economista, basta ter o diploma da universidade, enquanto o que define a escritora é bem mais complicado. Ser escritora é ser uma mulher que escreve e publica? Ou mais do que isso? Alguém que desenvolveu uma voz própria e uma visão particular da experiência humana? Em que momento uma mulher deixa de dizer ‘eu escrevo’ e passa a dizer ‘eu sou escritora’?”

Ela conhece pessoas que escrevem, que gostam do que escrevem e publicam seus textos, mas não se apresentam como escritores. “É quase pretensioso dizer que é escritor.” Em outras profissões, não é preciso o selo do reconhecimento dos outros para alguém se identificar como economista ou contador.

A metamorfose de economista para escritora de livros de ficção não foi a primeira reviravolta na sua vida, marcada por muitas decisões que fugiram do padrão de brasileiras nascidas na década de 40. A começar pela escolha da carreira. Terminado o colegial, em Belo Horizonte, onde nasceu, ela escolheu o curso de letras, mas logo percebeu que preferia outros caminhos e foi estudar economia.

Outro caminho pouco comum entre as economistas mulheres daquela época foi sua decisão de fazer o doutorado fora do Brasil, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Mesmo entre os homens formados em economia eram relativamente poucos os que buscavam cursos de pós-graduação ou mesmo uma carreira fora do Brasil. Eliana trabalhou em várias instituições financeiras de grande prestígio, em particular o Banco Mundial, e deu aulas em várias universidades americanas.

Quando tinha se aposentado do Banco Mundial, foi morar no Cairo por ter se casado com um economista egípcio. Um dia, foi surpreendida por um convite inusitado e passou a escrever regularmente para este jornal.

“Foi Celso Pinto (que chefiou a equipe que criou o jornal) quem mudou minha vida. Até receber o convite dele para escrever uma coluna para o Valor, eu só fazia modelos de economia cheios de equações e me achava incapaz de escrever mais do que algumas linhas entre uma equação e outra”, afirma.

“Eu acreditava que não seria capaz de escrever um texto para uma audiência fora da academia. E então veio o convite: uma coluna para leigos em linguagem mais leve e informal. Comecei logo no primeiro número do Valor, com uma referência jocosa ao analista de Bagé, e tomei gosto”.

 

Analista de Bagé é um personagem criado por Luis Fernando Verissimo, que tenta resolver os problemas dos pacientes da sua clínica psicanalítica com joelhaços. Escrever as colunas divertia Eliana por serem textos mais leves, bem diferentes dos papers acadêmicos.

Depois de pouco tempo no Egito, Eliana voltou para o Brasil e se tornou professora titular da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Dez anos depois, apesar dos protestos do então diretor do curso de economia da FGV, Yoshiaki Nakano, Eliana resolveu parar de dar aulas e tentar escrever ficção.

“Escrevi colunas para o Valor durante 20 anos e quando me aposentei da FGV, em dezembro de 2013, acreditava que estava pronta para começar vida nova e escrever romances. Claro que não estava. Toda forma de escrita é diferente.” Desde então, publicou quatro romances - o mais recente foi lançado em junho. “Erro de pessoa” (ed. Minotauro), um livro relativamente curto (160 páginas), trata de conflitos familiares e saúde mental.

Eliana conta que se animou em escrever ficção porque sua estreia, “Bonecas russas”, publicado pela Companhia das Letras, foi finalista do Prêmio São Paulo em 2015. “Desde então escrever deixou de ser a camisa de força de artigos acadêmicos e virou a camisa de força do aprendizado da ficção. É muito mais difícil de fazer do que um texto analítico. Continuo tentando.”

Mas mesmo depois da publicação dessa primeira obra, ela não se sentia escritora. Quando lhe perguntavam o que ela era, respondia que tinha se aposentado como economista.

Ela ainda encontra fôlego e tempo para escrever livros infantis e foi ilustradora de algumas das suas obras. E publicou coleções dos seus artigos no Valor - além das colunas sobre economia, Eliana também publicou no jornal textos sobre livros.

 

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