Non duco; ducor

Alexandre Schwartsman

Estadão

Expectativas acima da meta refletem a própria postura do Copom

Explorei há algumas semanas neste espaço uma tese sobre a postura do BC em termos da velocidade de convergência da inflação à meta. Naquele momento, havia me chamado a atenção a mudança relativamente brusca do padrão das projeções de inflação do Copom divulgadas trimestralmente.

Até 2022 as projeções para o chamado “horizonte relevante” (o período 18 meses à frente, quando a política monetária teria seu efeito máximo) ficavam em torno da meta para a inflação, por vezes até abaixo dela. A partir de 2023, contudo, observamos o contrário: na imensa maioria dos casos as projeções do Copom ficam acima da meta.

Como não parece haver nenhuma alteração “estrutural” na economia que leve a inflação a ficar mais persistente por si só, minha interpretação foi no sentido de atribuir tal mudança a uma nova postura do BC, que preferiria convergência mais lenta, de modo a reduzir o custo associado ao processo.

Nova investigação sobre o assunto trouxe evidências adicionais neste sentido.

As projeções do BC são construídas sobre determinada trajetória esperada da taxa Selic. Concretamente, o Copom toma a previsão dos analistas compilada pela pesquisa Focus na sexta-feira anterior à sua reunião e a utiliza para projetar a inflação no horizonte relevante e nos 12 meses subsequentes.

Dado que as projeções de inflação desde 2023 ficam acima da meta, a conclusão natural é que a trajetória suposta de juros é inadequada: analistas tipicamente preveem redução da Selic maior do que seria apropriado para produzir a convergência no horizonte relevante.

Feita tal consideração, caso o BC estivesse em busca de convergência tempestiva da inflação, o Copom não deveria seguir a trajetória do Focus. Todavia, quando observamos o comportamento do BC notamos que em apenas 2 das 29 reuniões do Copom realizadas desde janeiro de 2023 a decisão se desviou do previsto; nas demais 27 o BC sancionou uma trajetória que sabia ser inadequada.

Vale dizer, a relativa lentidão da convergência ocorre de forma intencional. Como os observadores percebem tal padrão, obviamente ajustam as expectativas de inflação considerando tal informação. Assim, estas não só permanecem acima da meta para horizontes distantes, como 2028, mas também aumentam quando a inflação corrente sobe.

O BC se declara incomodado com este fenômeno e tem debatido suas causas. Não precisaria ir muito longe: se conduzisse a política monetária no lugar de ser conduzido pelo consenso de mercado, muito provavelmente não enfrentaria este problema.

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