Para o eleitor médio americano, a pobreza é percebida como resultado da falta de esforço

Por Samuel Pessôa, Folha de SP

A globalização produziu enormes ganhos em termos de redução da pobreza e melhora da distribuição de renda no mundo, apesar de a desigualdade dentro dos países ter crescido. A desigualdade mundial caiu, primeira redução desde a Revolução Industrial, pois a desigualdade entre os países caiu.

A globalização demanda que os países tenham Estados de bem-estar maiores. É a maneira de compensar as pessoas pelos maiores riscos produzidos pelos choques externos. De fato, os países mais abertos apresentam maiores Estados de bem-estar, como mostrou o professor de Harvard Dani Rodrik em trabalho publicado em 1998.

No entanto, o sistema político dos EUA não tem conseguido gerar expansão desses seguros ligados ao Estado de bem-estar à medida que a economia se abre para o comércio: entre 1969 e 2016, a corrente de comércio (exportação somada à importação) norte-americana, como proporção da economia, cresceu de 10% para 26%.

Dois livros recentemente documentam os impactos sobre o desemprego e as condições de trabalho dos brancos com média escolaridade (em geral ensino médio completo ou superior incompleto) da globalização em associação com o progresso técnico.

Os volumes são: “The Third Pillar: How Markets and the State Leave the Community Behind”, do professor da Universidade de Chicago Raghuram Rajan, e “Deaths of Despair and the Future of Capitalism”, do Prêmio Nobel e professor da Universidade de Princeton Angus Deaton (em coautoria com Anne Case, também de Princeton).

Como os livros mostram, os mesmos impactos ocorreram na população afro-americana 20 anos antes.

As mortes desesperadas de Deaton e Case referem-se à redução da expectativa de vida entre os brancos com média escolaridade —uma excepcionalidade norte-americana em relação aos demais países da OCDE—, fruto do aumento dos índices de suicídios, mortes por alcoolismo e consumo de opioides.

Rajan mostra que o efeito é particularmente forte em comunidades em pequenas e médias cidades que dependiam de unidades industriais que desapareceram com a globalização.

A baixa mobilidade do trabalhador desses estabelecimentos e seus vínculos com o entorno acabam por dificultar o ajustamento. Assim, comunidades inteiras, ao longo de uma ou duas décadas, sofrem um contínuo processo de decadência material e espiritual. As famílias se desintegram, aumentam a maternidade precoce e as famílias monoparentais, com deterioração da escola pública.

Os dois livros apresentam um quadro do eleitor de Trump. Não surpreende que, apesar de tudo, Trump tenha conseguido mais do que 72 milhões de votos, ou pouco menos de 47,5%.

Como mostrou o economista de Harvard Alberto Alesina em trabalho publicado em 2001 (em colaboração com Edward Glaeser e Bruce Sacerdote), a heterogeneidade racial dificulta que os EUA tenham um Estado de bem-estar tipo europeu: os eleitores brancos pobres não formam coalizão com as minorias afro-americanas e hispânicas, pois se sentem diferentes. Não há empatia.

Para o eleitor médio, a pobreza é percebida como resultado da falta de esforço.

Esse fato é exemplificado pela enorme dificuldade de Obama em aprovar uma mudança nada radical no sistema de saúde, para incluir parte da sociedade que estava desprotegida.

O estranho, portanto, é ter levado tantos anos para que o fenômeno Trump tenha acontecido. Joe Biden muito provavelmente não terá maioria no Senado. Terá dificuldade de andar com a agenda social.

Tudo sugere que as forças que levaram à vitória da agenda populista em 2016 continuarão rondando.

Link da publicação: Populismo ainda vai rondar os EUA

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