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Quando estava pensando no que escrever neste primeiro artigo do ano, li uma dessas frases divertidas que dizia “I’d like to cancel my subscription to 2021. I’ve experienced the 7-day trial and I’m not interested”, no mínimo engraçada, ela tem a ver com as várias situações que aconteceram no início do ano. Desde a “invasão” ao Capitólio em Washington até a infinita discussão sobre vacinas no Brasil.

Temos experimentado de tudo desde o início da Covid e não dá para dizer que sempre coisas que deveríamos nos orgulhar como cidadãos ou seres humanos, principalmente vindo do antagonismo e radicalismo de vários dos líderes do mundo.

Mas mesmo assim, vejo que 2020 nos deixou vários legados que darão bons impulsos para a humanidade daqui para frente.

Vamos olhar para o mundo, apesar da enorme queda de atividade em todos os lugares, foi sem precedentes e com impacto também sem precedentes as inúmeras formas de ajuda aos mais atingidos economicamente por essa situação, desde expansão monetária, queda de juros, empréstimos, cheques para as famílias, até perdão em aluguéis ou prestações. O que isso quer dizer? Que a humanidade aprendeu a reagir a situações limite, reduzindo fortemente seu impacto na vida das pessoas e famílias.

Mas além disso vários outros legados nos darão impulso a frente. O primeiro deles foi a antecipação forçada de um mundo mais conectado, o uso do digital, da tecnologia para que as pessoas pudessem seguir com a vida dentro das limitações de contato físico, resultando em novos hábitos, muitas vezes até mais eficientes para que todos se relacionem, pessoalmente ou profissionalmente.

O segundo foi a reascenção da agenda de sustentabilidade em geral, tanto social, de educação , de saúde quanto do nosso próprio meio ambiente. Está se tornando proibitivo continuar qualquer tipo de atividade sem que ela seja minimamente sustentável quanto a seus impactos. Neste sentido, o que temos visto é na verdade a evolução de nossa própria ética, precisamos fazer as coisas de maneira diferente todas as vezes que elas se tornam não sustentáveis ou mesmo agressivas ao meio ambiente.

O terceiro é a própria maneira de tratar uma pandemia no lado da saúde, tanto criando capacidade de atendimento em hospitais de forma exponencial, melhora contínua dos protocolos do próprio tratamento, quanto como se deve investir e criar condições para que venha uma vacina com uma rapidez que nunca se imaginou possível.

E o Brasil nessa história toda?

Claro que o Brasil irá se “beneficiar” de tudo que coloquei acima, mas o nosso país acabou dando vários passos para trás que precisarão ser reequilibrados, senão corremos o risco de cairmos no tão já falado precipício, vamos a eles.

Nós abortamos a agenda de consolidação fiscal pela metade quando começou a pandemia, precisávamos ainda melhorar o nosso resultado fiscal através de mais reformas em aproximadamente 4% do nosso PIB para que minimamente saíssemos da trajetória “precipício”, onde os agentes já não acreditam mais na viabilidade de uma administração razoável da dívida publica, aumentando fortemente a percepção de insolvência e calote. Após quase um ano estamos com mais desequilíbrio nas contas publicas e a nossa dívida saiu de 75% para 89% do nosso PIB (já contando com ajuda de cerca de 2pp da revisão do PIB nominal). Uma dívida administrável é um pressuposto básico para termos um ambiente estável, e sem estabilidade não conseguimos avançar numa agenda que nos ajude a voltar a crescer – o o nosso país quase não cresce há 15 anos.

O maior entrave ao crescimento é o tamanho do nosso estado, ele consome quase 40% do PIB sem praticamente nenhuma contrapartida, um estado gigante, caro e que presta péssimos serviços para a sua sociedade. Precisamos de um estado menor, que caiba em nosso PIB e que preste minimamente suas principais atribuições, que são: saúde, educação, segurança pública e regulação de alguns setores da atividade econômica.

O nosso país está muito atrasado em atacar minimamente seus maiores problemas, se continuar assim não só se tornará uma nação desatualizada do mundo, como acabara não se beneficiando dos aprendizados que a humanidade tem conseguido.

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.