Estadão (publicado em 08/12/2021)

Em 2022, alerta o economista, ‘ou restauramos a racionalidade – na gestão pública, educação e meio ambiente -, ou vamos perder uma geração’

Ele é graduado pela USP, tem PhD em Cambridge e, como escritor, ganhou dois prêmios Jabuti, em 1994 e 1995. Com um pé na filosofia e na literatura, e outro na economia – onde aparece mais no debate público –, Eduardo Giannetti da Fonseca chama a atenção para dois desafios. Um deles no Brasil, onde “estamos assistindo a um desmonte das instituições fiscais”. E outro no processo de hiperglobalização no planeta, “com um volume de ativos completamente desconectado da realidade”. 

Nesta entrevista a Cenários, ele comenta também a disputa por uma cadeira na ABL, faz mistério sobre um novo livro e avisa: “É talvez o livro mais filosófico que já escrevi”. 

Na semana que vem, você disputa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Vai virar imortal?

Sinto-me muito feliz de estar competindo pela cadeira número 2 da ABL. Eu já tinha sido sondado há algum tempo, mas achei prematuro. Agora, vieram de novo e me senti apto a entrar na disputa. Isso me interessa porque sempre fui identificado como economista, mas minha atividade principal, de trabalho, não é de economia.

Pode explicar qual é?

Já publiquei mais de 10 livros sobre filosofia, já escrevi literatura. E nesta etapa da vida estou interessado em me direcionar para literatura e filosofia.

Você está escrevendo um novo livro, não? Pode falar a respeito?

Acho que queima o assunto falar muito cedo. Posso adiantar que o tema é filosofia. É talvez o livro mais filosófico que já escrevi, algo bem reflexivo.

Então, vamos a uma pergunta mais fácil. O que vai acontecer no Brasil em 2022?

País está diante de uma encruzilhada, e o resultado das eleições vai ser determinante por várias gerações. Vivemos um processo complicado de polarização política. A vitória de Bolsonaro, em 2018, representou o fim de um ciclo do processo de redemocratização, no qual as três grandes forças de oposição ao regime militar foram testadas pelo eleitorado. Primeiro, o MDB de José Sarney e Ulysses Guimarães, depois o PSDB de Fernando Henrique e, por fim, o PT de Lula e Dilma. A vitória de Bolsonaro nega a política institucionalizada no País. 

De que modo essa mudança afetou a economia? 

O então deputado Jair Bolsonaro, por 30 anos no Congresso, foi estatizante, corporativista, defendeu propostas contrárias ao liberalismo. Como é que esse candidato, que seis meses antes da eleição declarou que FHC tinha de ser fuzilado por privatizar a Vale, se torna um liberal puro-sangue? Foi uma súbita conversão de 180 graus.

Acha que ele tem convicção sobre alguma coisa?

Minha percepção é de que ele imaginou que isso ia pegar bem no mercado financeiro. 

Mas, enfim, o que foi feito? 

Uma reforma da Previdência, que teve um protagonismo do Congresso. Avançaram em marcos regulatórios, saneamento, ferrovias, sistema portuário. A lei do BC independente já estava pronta. Mas o que eu não engulo é que eles nunca apresentaram uma reforma tributária. Abandonaram uma boa proposta, a PEC 45. Inventaram de voltar com a CPMF, que não deu em nada. A reforma do Imposto de Renda, idem. Na verdade, estamos assistindo ao desmonte das instituições fiscais do País. 

E a inflação aumentando…

Com a inflação, provocada em grande parte pela desvalorização cambial. E, com a incerteza fiscal, aumentar os juros é muito grave, porque 1% a mais na Selic gera um gasto adicional de R$ 34 bilhões. Estamos falando de “um Bolsa Família” a cada 1% da Selic. Por isso que 2022 é uma encruzilhada. Ou restauramos uma certa racionalidade – na gestão pública, na educação, cultura, meio ambiente, economia – ou vamos perder uma geração. Se continuar o atual descalabro, vamos para o buraco.

Acha que a pandemia afetou a teoria econômica?

Temos uma regularidade histórica que, de novo, se confirmou: grandes crises, guerras ou desastres naturais levam ao crescimento do Estado. É ele que se impõe como autoridade para coordenar e gastar. Uma coisa que aconteceu é que o processo de globalização – que traz vantagens inequívocas quanto à eficiência – revelou uma vulnerabilidade que não era explícita. 

E qual o efeito disso?

Estudo recente de uma consultoria mostrou que, para 180 produtos cruciais das cadeias produtivas mundiais, há apenas um ou dois fornecedores. Para ingredientes farmacêuticos, 80% da produção está concentrada na China e na Índia. Isso é muito perigoso para a humanidade. Um problema num país interrompe uma cadeia produtiva geral. Acho que isso pode nos levar a um arrefecimento desse processo de especialização e hiperglobalização. 

E isso traz consequências complicadas, não?

Essa lógica da hiperglobalização tem uma fragilidade que precisa ser incluída no processo. Um simples dado: a dívida global, pública, familiar e corporativa hoje é de 352% do PIB mundial. Antes da pandemia, estava em 325%. Você tem um volume de ativos com preço completamente desconectado do mundo real, de tudo. Na hora em que precisar aumentar juros, há o risco de essa bolha estourar. 

Link da publicação: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,o-que-vemos-e-um-desmonte-das-instituicoes-fiscais-dizeduardo-giannetti,70003920067

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