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Riscos globais

Valor Econômico


O ano terminou com sinais mais preocupantes sobre o ritmo da atividade global nos próximos trimestres. Essa preocupação foi evidenciada pela forte correção do mercado acionário americano, bem como outros movimentos de preços de ativos, como a tendência à inversão da estrutura a termo das taxas de juros nos EUA. Além da incerteza sobre o ritmo de expansão da atividade nos EUA, os mercados seguem sensíveis ao noticiário sobre a desaceleração na China, e também aos múltiplos problemas políticos observados na Europa. Ainda que essas preocupações sejam legítimas, cabe registrar que há fatores de resistência que tendem a mitigar o risco de cenários mais extremos, como uma recessão global em 2019, ainda que não a ponto de os eliminar por completo.

Considerando-se os EUA, a paralisação parcial das atividades governamentais, o chamado  “shutdown”, pode ter um impacto negativo de 0,07% por semana (estimativa dos economistas do Itaú para a redução do crescimento trimestral anualizado do PIB). Isto poria em risco nossa projeção de 1,9% para o primeiro trimestre do ano (vindo de estimados 2,8% no quarto trimestre de 2018 e de um pico de 4,2% no segundo trimestre do ano passado). Cabe registrar que a desaceleração em curso da economia americana é uma correção, um  movimento em direção ao crescimento potencial, que se encontra no intervalo de 1,75% a 2%, e que vem ocorrendo na medida em que os efeitos do ajuste monetário implementado pelo Fed começam a se sobrepor aos efeitos do estímulo fiscal adotado em 2017/18.

A desaceleração esperada reflete, em boa medida, perda de dinamismo do investimento,  enquanto o consumo, amparado por um mercado de trabalho ainda bastante forte, deve seguir mostrando dinamismo. Um pouso suave da economia pode degenerar, caso ocorram choques e/ou erros de política econômica, em um pouso acidentado, mas isso não é uma certeza.

A economia mundial viverá mais perigosamente em 2019. Redução do crescimento é o cenário central.

É importante notar que as várias fontes de incerteza e preocupação quanto à economia americana estão, de alguma forma, sob controle das autoridades daquele país. O  encaminhamento racional desses temas deve mitigar o risco de um arrefecimento mais abrupto e intenso da atividade. O primeiro é o da guerra comercial. A sinalização oferecida pelo comportamento dos mercados de ativos oferece uma clara indução ao governo americano para evitar uma nova rodada de elevação de tarifas, continuando as negociações com as autoridades chinesas.

O mini-crash de dezembro deve também aparecer, e de forma relevante, nas discussões sobre os próximos passos da política monetária. Como já foi sinalizado pelo presidente do  Fed de Nova York, John Williams, a política monetária americana não está em um curso inalterável, e pode ser corrigida à luz dos dados que irão sendo divulgados – consideramos que o aperto das condições monetárias observado nos EUA desde a reunião da política monetária de dezembro foi equivalente a uma alta de juros próxima a 0,5% (além daquela realizada na própria reunião).

Isto significa que, caso as condições financeiras não apresentem melhora, o Fed pode se ver desobrigado de implementar integralmente os 0,5% de altas de juros adicionais que vem  sinalizando em sua comunicação – o mercado está se adiantando e fazendo a tarefa do Fed de adequar o crescimento efetivo ao potencial.

Já o ruído sobre uma possível demissão do presidente do Fed pelo presidente Trump não deve passar disso. Erros de julgamento e choques podem ocorrer, mas não parecem existir obstáculos estruturais ou institucionais às correções tempestivas de curso que evitem cenários mais desfavoráveis.

No caso chinês, o governo parece estar tentando conciliar a necessidade de se sustentar um patamar mínimo de atividade econômica com sua agenda de reformas, que visa conter a alavancagem e o rebalanceamento da economia, com mais destaque para consumo e demanda doméstica, às expensas do investimento e exportações. A meta oficial para o crescimento em  2019 só deve ser anunciada em março, mas a sinalização da Conferência Econômica (CEWC) de dezembro indica algo no intervalo 6% a 6,5%, não muito distante dos patamares correntes.

Para tanto, o governo deve implementar medidas de estímulo fiscal (notadamente por meio de cortes de impostos) e manter uma política monetária “prudente”, mas que assegure ampla liquidez, de forma a evitar uma desaceleração exagerada do crédito. Note-se que as autoridades têm, também, tomado medidas na área da proteção à propriedade intelectual (legislação que restringe a capacidade dos governos locais de adquirir tecnologia via joint ventures) que devem reduzir o contencioso com os Estados Unidos.

A combinação dos estímulos domésticos com alguma redução na fricção comercial com os EUA deve ser suficiente para evitar uma desaceleração mais aguda da atividade, estabelecendo um piso para a taxa de crescimento em torno de 6% em 2019. Vale registrar que a fuga de capitais,  que poderia se mostrar uma restrição à adoção de políticas econômicas mais expansionistas na China, tem se mostrado pouco relevante nos últimos trimestres. Em suma, na China, assim  como nos EUA, não parecem haver restrições de curto prazo à adoção de políticas que favoreçam a continuidade da expansão da atividade.

O mesmo, contudo, não se aplica ao outro vértice do triângulo das principais economias, a  Europa. As principais economias europeias vêm exibindo perda de dinamismo em um momento em que a situação política da região também está se tornando crescentemente complexa. Temos o Brexit, que pode afetar tanto o Reino Unido quanto a União Europeia de  forma adversa, com solução ainda indefinida. No continente, problemas regionais voltaram a se intensificar na Espanha; o governo Macron ainda não parece ter superado por completo os efeitos dos protestos do “colete amarelo”; o governo italiano demonstra ter dificuldades ou frontal aversão a persistir com a política de ajuste fiscal, e o longo período de Angela Merkel como chanceler da Alemanha parece estar se encaminhando para seu final.

Líderes políticos enfraquecidos não devem ter a capacidade de adotar as políticas, como uma expansão fiscal coordenada, que podem ser necessárias caso ocorra uma redução mais intensa do ritmo de crescimento. Diante desse quadro, o banco central europeu (BCE) pode ter dificuldades em reduzir o estímulo monetário, como vem sinalizando. Para tornar o quadro ainda mais complexo, a liderança do BCE será alterada em novembro, o que pode tolher, ainda que momentaneamente, sua capacidade de responder a uma deterioração súbita do cenário.

A economia mundial viverá mais perigosamente em 2019. Redução do crescimento deve ser o cenário central, ainda que as principais economias venham a escapar da recessão, o que requer  capacidade de resposta de política, que existe tanto nos EUA quanto na China. Erros podem levar a resultados piores, mas estes devem ser evitados, caso a racionalidade econômica impere na determinação das decisões dos governos.

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

Sobre o autor

Mario Magalhães Carvalho Mesquita