Nos últimos 26 anos, conquistas do Brasil em termos de políticas econômicas e sociais foram muitas vezes seguidas por retrocessos
Valor
Os últimos 26 anos do Brasil, desde a criação do Valor, em termos de políticas econômicas e sociais e seus resultados foram marcados por avanços em algumas áreas, estagnação em outras e um tanto de retrocessos, apontam economistas.
O PIB per capita do país aumentou desde 2000, mas bem menos que a média dos emergentes: 45%, contra 147%, considerando dados em Paridade do Poder de Compra (PPC) e as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) até 2026. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil cresceu quase 0,1 ponto, passando de “médio” (0,69) para “alto” (0,786 até 2023) – quanto mais perto de 1, melhor. Mas está abaixo da China (0,797) – que, em 2000, tinha IDH quase “baixo” (0,598) – e longe de ser “muito alto” (igual ou superior a 0,8) como os EUA (0,938). A expectativa de vida dos brasileiros subiu quase sete anos, para 76,4 anos, em linha com países de renda média-alta (76,8), mas também abaixo de China (79) e EUA (79,8).
“Nas últimas décadas, o Brasil avançou em algumas áreas, mas não em outras e, em algumas, inclusive, retrocedeu”, diz Fernando Veloso, diretor de pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) e um dos coordenadores da coletânea “Caminhos do Desenvolvimento: Estabilizar, Crescer, Incluir”, recém-lançada pelo Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP).

Desde o fim dos anos 1990, há uma agenda positiva na área de crédito, baseada na redução dos “spreads” (diferença entre o custo de captação dos bancos e as taxas de juros cobradas) e no fortalecimento das garantias, aponta Veloso. Nesse contexto, foram promulgadas as leis da alienação fiduciária e de falência, aumentando o poder dos credores, e foi criado o crédito consignado para aposentados do INSS – hoje, envolto em escândalos, mas que, à época, deu impulso importante ao crédito das famílias. “É uma agenda em construção, que continua”, diz Veloso, citando o relançamento do consignado privado no ano passado.
Houve outros acertos, cujos efeitos são sentidos até hoje. Nos anos 2000, o Brasil conseguiu se inserir no comércio mundial via commodities, lembra Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting. Para ela, o país não apenas “surfou a onda” global favorável. “Foi uma construção, nosso produto era competitivo. E o país vem conseguindo aumentar sua participação”, afirma.
As commodities respondem por quase 70% das exportações brasileiras. “É um setor que sente menos o ‘custo Brasil’, porque a carga tributária é mais baixa e porque é intensivo em capital, então, não sofre tanto as limitações de capital humano. Esses dois elementos não eliminam, mas reduzem a insegurança jurídica”, afirma Latif, acrescentando que este é um ponto em que o Brasil está “muito atrasado”.
Além disso, diz, segmentos de commodities são bastante baseados no empreendedorismo e colhem os frutos de acertos como os investimentos, décadas atrás, na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Trouxe para o DNA do setor estar sempre inovando e investindo. E continuamos vendo os resultados disso, por exemplo, no petróleo”, afirma.
Em 2025, petróleo e derivados representavam 43,3% do superávit da balança comercial brasileira. A produção de petróleo do país deve crescer e renovar recordes até o fim desta década. Graças a isso, o Brasil é hoje, por exemplo, o país com melhor posição externa, entre as grandes economias emergentes, para enfrentar o choque energético decorrente do conflito no Oriente Médio, mostra estudo de Iana Ferrão, do BTG Pactual.
Uma abertura comercial mais ampla, no entanto, não aconteceu. “Na primeira metade dos anos 1990, o Brasil reduziu tarifas e barreiras não tarifárias, convergindo ao padrão dos emergentes. De lá para cá, avançou-se muito pouco e houve retrocessos, como políticas de conteúdo local”, diz Veloso.
Segundo ele, as tarifas cobradas pelo Brasil estão na faixa de 12%, enquanto emergentes cobram algo em torno de 6%. “O Brasil está muito atrasado na área comercial.” O acordo Mercosul-União Europeia, recém-promulgado por Lula, vai no caminho certo, segundo Veloso, mas as negociações se arrastaram por mais de 20 anos. “E precisa avançar muito mais. Vários países e blocos econômicos estão buscando acordos diante do protecionismo dos EUA.”
Para Latif, o caso dos segmentos de commodities é exemplo da agenda pública necessária para o Brasil. “Dá uma dica de que vale a pena.”
Houve outros acertos nos anos 2000. “O fenômeno da nova classe média não foi só brasileiro, foi de emergentes em geral, muito associado à globalização, mas a gente também conseguiu se inserir”, diz Latif. O tripé macroeconômico do segundo governo Fernando Henrique Cardoso (1999-2002) – câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário – foi uma construção institucional de efeito prolongado e que permitiu esses frutos serem colhidos no tempo, segundo ela. “Depois, o Bolsa Família foi importante para reduzir pobreza, houve inserção no mercado de trabalho”, acrescenta.
Olhar para o Brasil nos últimos 26 anos ou 10, em termos sociais, é olhar para histórias muito diferentes, diz Vinícius Botelho, ex-secretário do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ministério da Cidadania e também um dos coordenadores da coletânea “Caminhos do Desenvolvimento”.
“Olhando 26 anos atrás houve um ciclo muito positivo de redução da pobreza e da desigualdade, com o Brasil encontrando uma fórmula única no mundo para esse combate”, diz Botelho, destacando a criação do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), em 2001, e a autodeclaração dos beneficiários. “A evidência é que erros de inclusão existem, mas a performance da política é superior a diversos países que implementam modelos mais enrijecidos”, afirma.
Analisando as políticas sociais do Brasil em um prazo ainda longo, mas menor, dos últimos dez anos, o quadro é mais crítico. Falhas no desenho do Benefício de Prestação Continuada (BPC) – ajuda a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda – já eram gargalos importantes, diz Botelho. “A própria discussão sobre o que é vulnerabilidade e pobreza não foi totalmente resolvida”, afirma.
Olhando 26 anos atrás, foi um ciclo positivo de redução da pobreza e da desigualdade”
— Vinícius Botelho
No caso do Bolsa Família, diz, a instituição, nos últimos anos, de um piso no valor do benefício homogenizou o programa. “Uma das razões de sucesso era sua capacidade de transferir mais a quem mais precisa e menos para quem menos precisa. Isso se perdeu e, ao mesmo tempo, a elevação abrupta dos valores pode gerar efeitos no emprego que estamos tentando compreender”, afirma Botelho.
Ele nota que, em 2024, o Brasil registrou os menores níveis de pobreza (23,1%) e extrema pobreza (3,5%) da série do IBGE, iniciada em 2012. Sem contar os programas sociais, a extrema pobreza seria quase três vezes maior (10%) e a pobreza alcançaria 28,7%. “Sem contar os programas, a pobreza está em patamar relativamente elevado apesar do nível baixo do desemprego, ou seja, de um mercado de trabalho receptivo”, afirma.
Além disso, novos programas surgiram – como o Gás do Povo, criado no ano passado para ampliar o acesso ao botijão de cozinha -, representando nova fragmentação da política de proteção social, segundo Botelho. “Quando o Bolsa Família foi criado, ele unificou diversos programas, inclusive um de auxílio-gás, mas, agora, parece que se dobra a aposta com novos programas, voltando à fragmentação das políticas”, diz.
Existe ainda, segundo Botelho, uma agenda necessária de superação definitiva da pobreza que é mais ampla, passando, por exemplo, por políticas de desenvolvimento infantil integradas e programas ativos e efetivos de intermediação e qualificação da mão de obra. “Ok, você tirou a pobreza imediata, mas há outras coisas, tem educação de baixa qualidade, serviços públicos ruins”, afirma.
A escolaridade, apesar dos problemas, tem melhorado a longo prazo, o que ajudou a produtividade total da economia a não ser ainda pior nas últimas décadas, observa Veloso. “Houve avanços, com impacto positivo para reduzir informalidade e desemprego e para aumentar renda. Mas a qualidade ainda é muito baixa e, na educação, os problemas são cumulativos. Sem base, tentar consertar depois fica muito mais difícil.”
No Pisa, uma das principais avaliações de qualidade da educação básica do mundo, o Brasil estava 14 pontos melhor no quesito leitura em 2022 (último dado disponível) do que em 2000, enquanto a média da OCDE (grupo que reúne grandes economias globais) viu sua nota piorar em 18 pontos no período. Ainda assim, o Brasil manteve um desempenho considerado baixo, com 410 pontos, aquém dos 482 da OCDE.
“Não conseguimos replicar para o resto do país as experiências de sucesso”, afirma Latif.
Ela prossegue observando que, dos acertos dos anos 2000 para cá, no caminho e em meio a escândalos de corrupção, o Brasil não só parou de fazer as reformas necessárias, como embarcou em contrarreformas. Latif cita o forte aumento do crédito direcionado via BNDES e a “contabilidade criativa” nos governos de Dilma Rousseff (2011-2016), como as acusações de pedalada fiscal que levaram ao impeachment da petista. “Foi um período de retrocesso institucional do país e de erros de política econômica muito fortes”, afirma.
Para ela, o Brasil não conseguiu lidar de forma “economicamente razoável” com o período, desembocando em dois anos de recessão (2014-2016). Entre o segundo trimestre de 2014 e o quarto de 2016, a economia brasileira acumulou queda de 8,1%, perda que só ficou atrás dos 10,7% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020, por causa da pandemia – outro marco nas últimas duas décadas e meia.
A incapacidade do Brasil de lidar com os conflitos de meados da década passada preservando o bem-estar social o máximo possível contribuiu, segundo Latif, para gerar um sentimento de raiva que é raiz para a polarização que veio depois e que também cobra seu preço na economia. “É muito mais difícil conquistar apoio para reformas, e a gente não consegue avançar de forma ambiciosa”, afirma.
O “copo meio cheio”, segundo Latif, é que reformas até voltaram a acontecer nos últimos anos – houve a trabalhista no governo de Michel Temer (2017), a da Previdência com Jair Bolsonaro (2019) e a tributária em Lula 3.
O “copo meio vazio”, afirma, é que o Brasil ficou “muito atrasado”. Segundo Latif, as estimativas indicam que o PIB potencial do país de 2000 até a crise de 2014-2016 estava entre 3,5% e 4%; depois da recessão, caiu para 1% e, agora, deve estar entre 2% e 2,5%. “Ainda é um padrão baixo, principalmente se considerarmos que a demografia já não ajuda mais”, afirma.
E, ainda que o Brasil tenha conseguido voltar a dar continuidade mínima a reformas, a lentidão das mudanças preocupa, segundo Latif. “A falta de previsibilidade compromete qualquer agenda econômica e de política pública. Se a macro está desarrumada, a eficiência das políticas também é menor.”
A instabilidade fiscal é outro “ veneno” para o crescimento, diz a economista. Para ela, o regime fiscal do Brasil está pior hoje que nos anos 2000. “Não consegue amadurecer na questão fiscal. Há momentos de maior racionalidade, mas, quando começa a ficar um pouco melhor, abandonamos as agendas.”
Pelo quesito do FMI e considerando projeções do Fundo para 2026, a dívida do Brasil deve ter subido 34,3 pontos desde 2000, um pouco acima da alavancagem de 31,2 pontos da média dos emergentes. Mas, como o ponto de partida do Brasil era pior, a dívida bruta do país deve atingir 96,5% do PIB este ano, ante 77,2% dos emergentes. “O regime fiscal não trazer a previsibilidade de que a gente precisa passados 26 anos é uma vergonha”, afirma Latif.
Link da publicação: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/05/04/sequencia-de-tropecos-afasta-pais-de-emergentes-apesar-de-alguns-avancos.ghtml
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