Artigos

O Brasil que queremos

Globo

Quase dois terços das diferenças de renda observadas no país não decorrem de esforço individual, mas das condições em que cada pessoa nasceu


Ano eleitoral, pré-campanhas nas ruas (ou, melhor, nas redes sociais) e problemas reais que se acumulam. Difícil concorrer em atenção com a maior fraude financeira da história, que ainda por cima gabarita a lista dos nomes já carimbados em escândalos anteriores de corrupção. Ainda mais agora, que ela arromba a porta de uma das pré-candidaturas e torna impossível não colocar itens como combate ao crime organizado, à lavagem de dinheiro e à corrupção no topo da lista de problemas brasileiros. Mas há outros que não podem passar desapercebidos, mesmo que hoje só haja espaço no pé da página do jornal para eles.

Números recentes divulgados pelo IBGE com base na Pnad Contínua mostram que a renda média do brasileiro subiu — o que, à primeira vista, parece uma boa notícia. A renda média mensal atingiu R$ 3.367 em 2025, o maior valor da série histórica, com alta real de 5,4% em relação a 2024.

Mas esse avanço veio acompanhado de uma piora na distribuição da renda: os 10% mais ricos ampliaram sua participação na massa total de rendimentos do país, passando de 39,6% para 40,3%. A distância entre os 10% mais ricos e os 40% mais pobres também voltou a crescer, passando de 13,2 para 13,8 vezes.

Mas a questão não para aí. Embora nos orgulhemos de histórias de superação — alimentadas por narrativas de empreendedores que venceram sozinhos apesar do vento contrário, de estudantes que ascenderam pela educação ou da inclusão proporcionada pelo crescimento econômico — a realidade é que pouquíssimos brasileiros conseguem romper com o destino que sua origem social lhes impõe.

É o que mostra o “Global Estimates of Opportunity and Mobility”, desenvolvido por pesquisadores ligados ao Stone Center on Socio-Economic Inequality e à London School of Economics. O estudo busca medir quanto da desigualdade de renda decorre de circunstâncias herdadas, e não de fatores sob controle do indivíduo. E o resultado para o Brasil confirma o que já sabíamos.

Segundo o levantamento, 65,7% da desigualdade de renda no Brasil pode ser explicada por circunstâncias herdadas — origem familiar, renda e escolaridade dos pais, raça, gênero ou território de nascimento. Ou seja: quase dois terços das diferenças de renda observadas no país não decorrem prioritariamente de esforço individual, mas das condições em que cada pessoa nasceu.

O contraste internacional ajuda a dimensionar o problema. A média global é de 40,9%, com os Estados Unidos atingindo 41,6% e a Dinamarca, referência de mobilidade social, apenas 18,9%. O Brasil se aproxima de casos extremos de rigidez social, como a África do Sul, que atinge 76,7%.

O dado mede a persistência intergeracional da desigualdade. Ou seja, o quanto o lugar em que se nasce determina o lugar em que provavelmente se morrerá na estrutura econômica. O que confirma que a desigualdade brasileira é também um fenômeno de reprodução social. A qualidade da educação ainda depende fortemente da renda familiar.

O CEP continua influenciando acesso a emprego, segurança, saneamento e redes de relacionamento. O problema do Brasil não é apenas ser um país desigual, mas também que a desigualdade se reproduz com enorme persistência.

Isso tem implicações econômicas relevantes. Sociedades de baixa mobilidade desperdiçam talento, reduzem produtividade e limitam inovação. A consequência não se limita à injustiça social. O dinamismo econômico também se torna menor.

Há ainda uma dimensão institucional importante. Países com maior mobilidade social tendem a ser sociedades mais coesas e mais confiantes nas regras do jogo. Já sociedades em que o esforço individual parece insuficiente para alterar trajetórias tendem a produzir maior desalento, polarização e perda de confiança nas instituições. O Brasil conhece bem esse isso.

E isso muda as prioridades e desloca o foco da discussão para algo mais estrutural: a igualdade de oportunidades. Transferências de renda seguem fundamentais para aliviar pobreza e vulnerabilidade. Mas mobilidade social exige muito mais: educação básica de qualidade, primeira infância, redução das desigualdades regionais, integração produtiva, crédito saudável, acesso a mercados, urbanização mais equilibrada e fortalecimento do capital humano.

Não se trata apenas de distribuir renda. Trata-se de distribuir possibilidade de futuro.

Link da publicação: https://oglobo.globo.com/google/amp/economia/ana-carla-abrao/coluna/2026/05/o-brasil-que-queremos.ghtml

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.


Sobre o autor

Ana Carla Abrão Costa