A comunicação da política monetária

Mario Mesquita

A partir dos anos 90, a comunicação do Fed foi evoluindo até ser efetivamente elevada a um novo instrumento de política monetária

Valor

Alan Greenspan (1926-2026), comandou o Fed - banco central dos EUA - de 1987 a 2006. Greenspan, inicialmente conservador, soube tirar partido da evolução da literatura acadêmica para melhorar as práticas de comunicação do Fed ao longo do tempo. Cabe reconhecer que, além da evolução do entendimento do papel da comunicação na política monetária, o aumento da transparência refletiu cobranças políticas.

Em 1987, alterações da postura de política monetária precisavam ser inferidas pelas instituições financeiras a partir das operações da mesa do Fed de Nova York (o braço operacional do banco central); não havia comunicados formais. Tampouco existia uma agenda pública das reuniões em que se discutia política monetária, ainda que, em geral, ocorressem oito por ano. O presidente do Fed prestava contas ao Congresso duas vezes por ano, com discursos tipicamente opacos, utilizando o chamado Fedspeak.

 No início de 1994, o Fed emitiu o primeiro comunicado sobre uma decisão regular de política monetária, quando anunciou uma modesta elevação da taxa de juros. Na época, e até a virada do século, comunicados só eram emitidos quando havia mudança da taxa de política monetária. Ao final da era Greenspan, o Fed já trabalhava com um esquema de comunicação mais amplo, com comunicados e atas em todas as reuniões, publicação dos votos individuais dos membros do comitê de política monetária e comentários sobre o balanço de riscos.

A comunicação do Fed seria profundamente alterada, na direção de ainda mais transparência, com a grande crise financeira (GCF) de 2008, na gestão Bernanke. Naquela ocasião, o Fed exauriu sua capacidade de cortar a taxa de política monetária relativamente cedo, quando a mesma chegou a zero em dezembro de 2008. Para lidar com essa limitação importante, o Fed reforçou sua comunicação, sinalizando a manutenção da taxa nesse patamar por um período prolongado. A comunicação foi efetivamente elevada a um novo instrumento de política monetária.

 O arcabouço de comunicação do Fed seguiu sendo aprimorado, com a explicitação da meta de inflação de 2,0% (em 2012). Ao final da era Powell, o mecanismo de comunicação incluía conferências de imprensa, publicação tempestiva das atas, uma bateria de discursos de policymakers no período entre as reuniões de política monetária e divulgação trimestral de projeções econômicas dos membros do comitê (incluindo taxas de inflação, de juros de política monetária, PIB e desemprego).

O primeiro comunicado de política monetária da era Warsh reduziu a média de palavras de cerca de 300 para 130

Alguns aspectos desse arcabouço podem ser contraproducentes. Em primeiro lugar, o Fed divulga projeções de membros votantes, mas também dos não votantes, que têm menos relevância. As projeções não raramente ficam distantes dos valores observados, e sua publicação pode limitar a flexibilidade intelectual dos participantes. Outro problema é uma certa confusão sonora. Dada a natureza federativa do Fed, com doze presidências regionais, é compreensível e esperado que muitos presidentes se manifestem. Os membros da diretoria, em Washington, também se posicionam publicamente. Essa proliferação de porta-vozes tende a aumentar o grau de ruído em torno da política monetária. Dada a natureza e história da instituição, esse tema é de difícil equacionamento. De qualquer forma, um tanto a mais de disciplina na mensagem provavelmente ajudaria o entendimento dos mercados sobre a política monetária.

 Sendo assim, não surpreende que o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, venha tecendo críticas à comunicação da instituição, que julga ser ruidosa e contraproducente. Ele se recusou a apresentar suas projeções econômicas na sua primeira reunião, e reduziu drasticamente o tamanho do comunicado posterior. Reduziu o comunicado, mas não seu impacto. Na verdade, a adição de uma frase que reforça o compromisso do comitê com a estabilidade de preços, em contexto de inflação pressionada, contribuiu para um importante reapreçamento da curva de juros americana, com implicações globais.

O primeiro comunicado de política monetária da era Warsh conteve 130 palavras. A média, nos últimos anos, era de cerca de 300 palavras. Comunicados em momentos de crise, como na GCF e na pandemia, tendiam a ser mais extensos, com 500 ou mais palavras. Como mencionado acima, apesar de enxuto, o comunicado de Warsh não careceu de impacto. Ficou clara a visão dominante do comitê quanto à sua prioridade atual. Mas a economia de palavras não deixa muito claro quais serão as principais variáveis monitoradas pelo comitê para calibrar a política monetária. Não apresentar projeções, ou, como aqui, o cenário básico do comitê de política monetária, dificultaria sobremodo a análise prospectiva dos agentes de mercado, e provavelmente aumentaria a volatilidade das taxas de juros.

Na verdade, mesmo quando não intencionalmente, os textos dos bancos centrais e pronunciamentos públicos das autoridades quase sempre dão alguma sinalização para os observadores de mercado. Simplificar a comunicação e reduzir ruído são objetivos laudáveis. Mas a opacidade, além de indesejável, é uma quimera.

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As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

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