Ex-presidente do Banco Central afirma que não dá para dissociar a medida das eleições e que a política social ‘carece de uma grande revisão’
Globo
O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga afirmou que “não dá para dissociar das eleições” o momento escolhido para anunciar o reajuste de 15% nos benefícios do Bolsa Família. Ele afirma que todo o aparato da política social merece uma grande revisão. O economista afirma que a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), na qual ministros bateram boca e foi pedido vista no pedido de abertura de processo contra Alexandre de Moraes, deixou uma sensação de impunidade.
Como o senhor avalia esse reajuste no Bolsa Família?
O momento, claramente, não dá para dissociar das eleições. Acho que a palavra populismo surge quase que instantaneamente.
Como a medida pode impactar o Orçamento?
A meta fiscal esse ano se for cumprida formalmente, vai ser só formalmente, porque economicamente não foi. Como a gente já falou várias vezes, é uma meta insuficiente, principalmente para um programa de quatro anos. O Brasil chegar aqui ainda com déficit primário em termos econômicos, eu acho que é o que está por trás desse cabo de guerra entre o fiscal e o monetário que joga o juro ainda mais para cima.
O senhor acha que é necessário fazer uma correção no benefício?
Acho que todo o nosso aparato de políticas sociais carece de uma grande revisão. É algo que estava precisando um grande repensar. O IMDS (Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social, do qual Arminio é um dos fundadores) soltou um estudo sobre o salário mínimo recentemente, tema altamente polêmico, não só pelas implicações fiscais, mas também do mercado de trabalho.
“O Brasil corre o risco, se é que já não está chegando perto, de virar uma republiqueta da pizza”
Então, são temas todos eles radioativos, mas que a gente em algum momento vai ter que encarar de uma forma mais ampla. Estamos falando de mercado de trabalho, dentro do tema mercado de trabalho, questões regionais, da maior importância. Estamos falando de impacto fiscal. Acho que não dá para deixar de falar também de inflação.
É um assunto grande que apareceu agora meio de paraquedas. Mas aí alguém vai dizer, “mas estava congelado há quatro anos”. Eu acho que é uma questão maior é OK. Nesse momento fica um pouco a primeira pergunta.
Se tem a ver com a questão eleitoral?
Isso, isso. Depois desse triste espetáculo no Supremo, cogita-se também que um impacto provável é negativo para a reeleição. Não sem razão, acho que está todo mundo pregando esses rótulos de várias denominações circulando, de autodefesa, de corporativismo, e, no fundo de impunidade. Tudo isso que a gente está falando é gigante. Mas não precisa assim de 200 palavras para comentar, sinceramente.
Essa última rodada agora no Supremo, onde se sequer foi possível avançar numa questão de ordem, mas tinha a ver com uma situação que parece visível a olho nu ia ser investigada pelo Supremo. Um importante detalhe é que um dos ministros, mas a Constituição diz que todo mundo é igual perante a lei.
Quais consequências esses episódios no Supremo podem acarretar?
O Brasil corre o risco, se é que já não está chegando perto, de virar uma republiqueta da pizza. Tem coisas que têm um efeito maior que o seu impacto no grande aparato legal do Brasil. Eu me lembro, lá atrás, quando o Brasil estava em moratória, Roberto Campos falava da cultura da moratória, que as pessoas que estão aí ralando, dando duro, de repente, veem o próprio Brasil dar um calote.
A turma talvez se sentisse menos mal não honrando alguma coisa, ainda que, com frequência, sejam problemas econômicos mesmo. É o exemplo que vem de cima. Isso é muito ruim.
Essa medida do Bolsa Família às vésperas da eleição que tipo de sinalização dá para a população?
Frequentemente me pergunto por que nós não aprendemos aqui no Brasil com erros? Será que a população acredita que isso é algo que vai realmente funcionar? E não é trivial, porque assim, até o aumento do salário mínimo desde décadas atrás, começando com Fernando Henrique, teve um papel importante.
Agora, tem limites? Têm limites econômicos, sociais. É um assunto complicado. Há um ano falei de desvincular a Previdência do salário mínimo e fui muito criticado. O objetivo é melhorar a vida da população, certo? Agora, se o objetivo é dar um tiro populista, complica um pouco a coisa. Com frequência nesse contexto erra mesmo para o bem-estar da população.
Errar como?
Por exemplo, ter um monte de políticas. Primeiro, cada política em si pode ser uma forma ineficiente de se atingir um certo objetivo. Segundo, de uma forma mais ampla, a soma das partes às vezes não dá certo. Explode o fiscal, joga o juro lá na lua.
“Ter um monte de políticas, primeiro cada política em si pode ser uma forma ineficiente de se atingir um certo objetivo. Segundo, de uma forma mais ampla, a soma das partes às vezes não dá certo. Explode o fiscal, joga o juro lá na lua”
Tudo bem, mas quais são então as prioridades para a gente fazer isso de uma forma bem-feita? Isso passou longe do Brasil, não é de hoje. Falta de prioridades. Não é só um problema de faltar responsabilidade fiscal, falta prioridade também.
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