A sabatina de Renan Santos

Samuel Pessôa

Folha

Os candidatos a presidente têm sido sabatinados pelas jornalistas Natuza Nery e Andréia Sadi na GloboNews. O conteúdo fica disponível no podcast "O Assunto". A primeira entrevista foi com o candidato Renan Santos, do partido Missão.

Um tema polêmico foi a crítica do candidato às famílias monoparentais. Segundo Renan Santos, essas famílias, em média, expõem seus filhos, principalmente os meninos, à criminalidade. A ausência de uma figura paterna que sirva de exemplo seria a causa maior do problema.

Há evidências que apontam haver correlação estatística entre ausência da figura paterna e maior probabilidade de o menino ingressar no crime. No entanto, a evidência causal não é tão clara.

Independentemente do grau de rigor que há na evidência que liga famílias monoparentais à probabilidade de jovens se tornarem infratores, chama a atenção a dificuldade que as jornalistas tiveram de acompanhar a argumentação do candidato nesta questão.

O candidato fazia claramente uma crítica aos homens brasileiros que se furtam de suas obrigações de pai. As jornalistas, contudo, entendiam que Renan estava criticando as mulheres que escolhiam ser mãe solo.

A dificuldade das jornalistas com o tema resulta de um obstáculo que todos nós enfrentamos no Brasil. É difícil para nós admitir que, mesmo em uma sociedade injusta e desigual como a brasileira, há escolhas individuais e comportamentos que reforçam as armadilhas de pobreza.

Ou seja, é importante que a nossa sociedade não normalize o homem que não responde por suas obrigações de pai. O Judiciário tem feito um trabalho importante em defender os interesses dos filhos frente a pais irresponsáveis. Talvez a sociedade precise ser mais incisiva em repreender socialmente homens que não se responsabilizam pelos seus filhos.

Para a sociedade americana, a melhor evidência que conheço é dada pelo artigo "Raça e oportunidade econômica nos Estados Unidos: uma perspectiva intergeracional", publicado na prestigiosa Quarterly Journal of Economics, em 2020.

O artigo considera uma base de dados ligando pais e filhos. Os filhos são observados em 2014 e 2015, com idades entre 30 e 40 anos, e seus pais são observados entre 1994 e 2000, quando os filhos têm entre 11 e 20 anos. A base inclui 94% de todas as crianças da geração considerada no estudo.

Os autores observam que as meninas negras, considerando a estrutura e a renda familiar, evoluem no mercado de trabalho, quando adultas, da mesma forma que as meninas brancas. Ou seja, toda a diferença que há entre elas deve-se às condições econômicas das famílias em que foram criadas.

Em particular, como famílias monoparentais têm menor renda, as meninas negras, por esse motivo, terão menos renda que as brancas. No entanto, controlando-se pela renda per capita do domicílio em que foram criadas, a evolução das meninas será a mesma, independentemente da etnia.

Para os meninos, as coisas não ocorrem assim. Meninos negros, criados em domicílios com a mesma renda per capita que a de meninos brancos, independentemente da estrutura familiar, na vida adulta evoluem menos e têm maior probabilidade de caírem de posição na escala da renda do que os meninos brancos.

Esse efeito pode desaparecer dependendo das características do bairro em que moram. Bairros com menor incidência de preconceito racial e com menor incidência de famílias monoparentais, independentemente do status da família do garoto, conseguem garantir um progresso para os meninos negros equivalente ao dos brancos.

Ao que tudo indica, parece ser por via da renda familiar e do entorno social que a monoparentalidade afeta as novas gerações.

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