Folha
Já há dez dias a imagem, recebida por WhatsApp, volta-me recorrentemente à mente: diante de uma construção austera —que depois soube tratar-se do prédio de controle fronteiriço do porto de Gyirong, no lado chinês da fronteira com o Nepal—, várias pessoas, diminutas, dada a distância da câmera de segurança, movem-se em velocidade crescente.
A maior parte afasta-se do edifício, mas outras vão em sua direção, transmitindo desorientação e desespero. Após alguns segundos, pássaros esparsos passam em voo frenético, fugindo de um perigo que não vemos.
Surge então, por detrás do terminal, uma violenta torrente cinza-escura que em segundos toma toda a tela. Somos poupados da visão das pessoas engolfadas: a onda é tão alta e poderosa que obscurece a câmera.
Os cientistas ainda são cautelosos em atribuir diretamente ao aquecimento global esse colapso específico, mas não há dúvidas de que a elevação da temperatura provoca o recuo das geleiras e o derretimento do permafrost, essencial para manter estáveis as montanhas do Himalaia.
Ao refletir o sentimento de impotência e alienação com que assistimos ao desastre, que um artigo do Guardian chamou de "ponto de exclamação em um verão de extremos", ocorre-me a imagem da passividade dos bois na fila do matadouro.
A desorientação das pessoas que fogem da onda quase sólida de detritos é a versão compacta daquela que nos acomete a todos, se ponderamos sobre as consequências —nas próximas décadas— do imobilismo diante do aquecimento global.
Houve momentos de maior determinação e mesmo entusiasmo com as perspectivas de enfrentamento do desafio. Penso no Acordo de Paris de 2015 como evidência maior desse sentimento; mas o ânimo arrefeceu.
As dificuldades de implementação de um acordo global tão complexo, potencializadas pela oposição fenomenal —escancarada, ou dissimulada— dos grupos de interesse ligados ao setor de combustíveis fósseis, provocam um estado de desalento e descrédito crescentes na sociedade global.
Em que momento começamos a desacreditar e passamos a desistir?
Viktor Frankl, psiquiatra e escritor austríaco que sobreviveu aos campos de concentração alemães —nos quais pereceram sua esposa, pais e irmão—, nos conta em seu livro "O Homem em Busca de Sentido" (que em edições alemãs posteriores traz o eloquente título "Dizer Sim à Vida") que, quando via um interno deixando de barbear-se e descuidando da higiene, protelando levantar-se de manhã, apesar do espancamento, e —principalmente— fumando seu pequeno capital de cigarros, em vez de poupá-los e trocá-los por pão, sabia que este havia desistido e se deixaria morrer.
Que comportamentos indicariam a mesma desistência diante da crise climática? Podemos arriscar alguns: tolerar a exploração de novos poços de petróleo sem questionamento? Eleger políticos descomprometidos com a queAinda relativamente rico, vagou à procura de pátria e fixou-se em Petrópolis (RJ), onde juntamente com sua mulher suicidou-se, em fevereiro de 1942. Estava profundamente deprimido nessa época, a ponto de isso afetar sua avaliação da realidade.
Segundo seus biógrafos, um dos acontecimentos que precipitaram a decisão pelo suicídio foi a certeza de que o "Eixo" triunfaria sobre os aliados, após a queda de Singapura para os japoneses, uma semana antes. Importante ter em mente que, pouco mais de dois meses antes, os EUA haviam entrado na guerra, estabelecendo o divisor de águas que definiria o conflito.
O erro de Zweig não foi a avaliação pessimista do presente, mas a projeção deste em uma previsão definitiva do futuro.
É possível ver agora a evolução na formação de um divisor de águas na questão climática. Suas duas vertentes seriam, por um lado, a maior tomada de consciência da ameaça presente, em razão das abóbadas de calor, das temperaturas recordes, dos incêndios e das secas no verão do hemisfério Norte. Apenas as ondas de calor já são associadas, em estimativas ainda parciais, a 35 mil mortes "adicionais" na Europa.stão ambiental? Priorizar o imediatismo sobre a sustentabilidade? Tudo isso tendo como pano de fundo a ideia de que a causa é impossível e a batalha está perdida.
Mas erros de avaliação são frequentes e podem ser trágicos. Stefan Zweig, judeu austríaco que até o início da Segunda Guerra era o escritor de maior circulação em língua alemã, bem como o mais traduzido, —mais do que Thomas Mann—, padeceu as maiores agruras com a ascensão do nazismo e a guerra: seus livros foram proibidos, foi forçado a abandonar sua casa em Salzburgo e a dispersar seu magnífico acervo de manuscritos, livros e memorabilia.
Por outro lado, há evidências crescentes de avanço na redução de emissões; nos EUA, a despeito da forte oposição do governo Trump, a energia renovável crescerá 45 gigawatts, 25% a mais que o recorde de 2024; os carros elétricos e híbridos plug-in representarão 29% do total de veículos vendidos globalmente, ante apenas 4% em 2020.
O Turcomenistão —país onde os megavazamentos de metano são os mais graves do mundo— alcançou grande progresso no seu controle, através de monitoramento via satélite; e —talvez o evento mais significativo— as emissões chinesas de CO₂ caíram 1% no segundo trimestre, puxadas por uma queda inédita no consumo de petróleo, resultado tanto do choque de preços quanto da crescente eletrificação dos transportes.
Viktor Frankl, no livro já citado, observou no campo de concentração que os prisioneiros com maior chance de resistir psicologicamente não eram necessariamente os mais fortes, mas aqueles que alimentavam um sentido de propósito, um projeto a ser concluído, um objetivo a ser atingido. Explicava esse fato lembrando Nietzsche: quem tem um "porquê" para viver suporta quase qualquer "como".
Amir Labaki, em resenha do excelente documentário sobre a ex-primeira-ministra da Nova Zelândia Jacinda Ardern ("A Primeira-Ministra", no Prime Video), enfatiza o "motto" que esta toma emprestado do explorador anglo-irlandês Ernest Shackleton: "Otimismo é a verdadeira coragem moral".
Haverá ainda muitos percalços no caminho para a superação do desafio climático, como os houve na Segunda Guerra, mesmo após o ingresso dos EUA. Mas o caminho começa a ser traçado e, para aqueles que desanimam ante a perspectiva de que esse possa ser longo, lembro uma frase que ouvi recentemente: "Se os seus projetos podem todos ser concluídos no seu tempo de vida, você está pensando pequeno".
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