Estadão
Traduzir necessidades internas em possibilidades externas é o grande desafio da política externa dos países
Traduzir necessidades internas em possibilidades externas é o grande desafio da política externa dos países. Na interligação do nacional e do global se situa o juízo diplomático que está voltado para avaliar perspectivas, possibilidades, dificuldades e resistências.
No entendimento da nossa circunstância diplomática, Helio Jaguaribe aponta que é preciso tanto perceber e analisar o Brasil na perspectiva do mundo, quanto pensar e avaliar o mundo na perspectiva do Brasil. Ambas obedecem a uma dialética de mútua complementariedade que, na sua dinâmica, oferece as indicações de como concretizar necessidades internas em possibilidades externas, em distintas conjunturas históricas.
O cenário internacional da atualidade vem se caracterizando pelas incertezas provenientes da intensidade do cambiante. Esta solapa os prévios e mais usuais padrões do aceitável e do previsível, inclusive em matéria de situação-limite paz/guerra da vida internacional. Irã e Oriente Médio testemunham esta realidade. Assim, tomar pé do que está acontecendo e como nos afeta é indispensável para uma gestão diplomática que leve em conta as duas perspectivas para discutir a inserção do Brasil no mundo. Um mundo do qual fazemos parte e não apenas nele estamos, como aponta Hannah Arendt. Daí o alcance esclarecedor de olhar os caminhos do Brasil na ótica do que se passa no mundo e olhar para o Brasil pelo olhar dos outros.
Pesquisas sobre essas duas óticas e sua complementaridade foram elaboradas por Bernardo Sorj e Sergio Fausto, que organizaram com este objetivo dois livros: O Brasil diante das turbulências internacionais de 2025 e, agora, O Brasil visto pelo mundo, disponível em breve. Ambos foram publicados pela Fundação Fernando Henrique Cardoso e expressam o legado do seu fundador, de estar presente na análise e discussão dos grandes temas da agenda nacional e internacional.
O Brasil diante das turbulências internacionais realça a contribuição de destacados estudiosos brasileiros das relações internacionais que, na pluralidade de suas perspectivas, enfrentam o tema das turbulências e seu impacto para o Brasil. Para dar foco às contribuições, todos responderam a uma série comum de perguntas. As respostas, como apontam Sorj e Fausto, “são em boa medida convergentes, mas as nuances entre eles são importantes” no que tange aos caminhos para enfrentar um “novo normal”. Expressam como as atuais turbulências vêm reduzindo as condições de permissibilidade do sistema internacional.
O Brasil vem calibrando, “grosso modo” com qualidade, essa redução de espaço, levando em conta as efetivas possibilidades do País de não se sujeitar automaticamente à grandeza das grandes e não se recolher à humildade dos pequenos Estados, para evocar a formulação de Rui Barbosa.
Já O Brasil visto pelo mundo reúne contribuições de relevo, elaboradas por autores e estudiosos da política externa de vários países com os quais o Brasil se relaciona de maneira significativa.
Todas as colaborações revelam como diferentes países – parceiros, aliados, competidores – discutem o papel do Brasil no mundo, no atual contexto internacional. Deram ênfase a temas centrais da agenda internacional de que são exemplo a governança global, as mudanças climáticas, a disputa da hegemonia Estados Unidos/China, o papel dos Brics, a democracia, a integração regional.
A pertinência de temas centrais resulta de um “novo normal” do cenário internacional. O “olhar dos outros” oferece um valioso contraponto, balizador da visão nacional, sempre esclarecedor no processo decisório da política externa.
Além do mais, é um componente da reputação de um país, de seu soft power, que atua para diminuir ou aumentar a capacidade de negociar, favorecer coalizões e exercer influência diplomática. É algo de valia num mundo globalizado e interdependente, que enfrenta os riscos e as incertezas de um “novo normal”, destituído da ordem de previsibilidade das condutas.
Essas perspectivas são diferentes de nosso próprio “olhar-mundo”, que não se amolda a rótulos simplificadores, como potências médias, Ocidente, Sul Global, Terceiro Mundo. Obedecem à múltipla memória do repertório diplomático do Brasil: a do locus standi dos recursos de potência média, sui generis, de escala continental, situado na América do Sul.
No exercício das possibilidades desta visão, o Brasil vem cultivando uma imagem de moderação e mediação, reformuladora da ordem mundial, valendo-se da persuasão (e não da força) para sustentar que, inclusive nas atuais turbulências internacionais, o Brasil tem não apenas interesses restritos, mas um interesse geral no funcionamento da máquina do mundo que nos afeta.
Essas características da identidade internacional do Brasil tendem a confundir o “olhar dos outros”. Possuem, no entanto, um sentido de direção que as unifica: preservar uma margem relevante de autodeterminação na condução dos assuntos internos com uma apreciável capacidade de atuação internacional, inclusive nas circunstâncias das tendências internacionais.
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