Os mecanismos que contribuíram para aumentar a renda das famílias no passado já estão esgotados
Valor

Agora que acabou a copa do mundo, entramos de cabeça no período eleitoral. Os candidatos começam a escolher suas equipes. Especialistas se juntam para organizar propostas em várias áreas. Quais são as principais questões que necessitam de solução para melhorarmos o Brasil?
O mercado de trabalho continua com baixo desemprego e com salários e renda per capita nos pontos mais altos da série. Mas, o crescimento da renda em termos reais tem sido mais baixo do que na década anterior. A figura (ao lado) mostra a parcela de pessoas em cada faixa de renda em 2005, 2015 e 2025. Vamos chamar as faixas de “pobres”, “classe média baixa”, “classe média” e “classe média alta”, de forma um tanto arbitrária, somente para facilitar a exposição. Podemos notar que em 2005, 20% dos brasileiros recebiam menos do que R$ 300 reais de renda por pessoa por mês, ou seja, eram pobres ou extremamente pobres. Em 2015 esta parcela tinha declinado para apenas 8%, e continuou a declinar na última década, chegando a apenas 5% O programa bolsa-familia foi o principal responsável por esta queda.
As famílias de classe média baixa, que ganhavam entre R$ 900 e R$ 3.000 para uma família de três pessoas (em valores de 2025), também diminuíram, embora mais lentamente do que a diminuição da pobreza, tendo passado de 45% da população em 2005 para 36% em 2015 e 28% em 2025. O grupo que mais aumentou foi o da classe média tradicional, que ganha entre R$ 3.000 e R$ 9.000 para uma família típica. Este grupo é composto, por exemplo, por famílias em que dois cônjuges têm um filho, ambos trabalham e ganham entre um e dois salários mínimos. Esta parcela da população aumentou de 26% em 2005 para 42% em 2015 e para 47% em 2025.
A parcela deste grupo na economia aumentou por várias razões. Em primeiro lugar, o tamanho das famílias caiu no Brasil, tendo passado de 3,7 pessoas em 2000 para 2,7 pessoas em 2022, principalmente devido à queda da taxa de natalidade. Isto significa que o número de trabalhadores per capita nas famílias aumentou bastante. O número médio de filhos deverá continuar declinando no futuro, mas a uma taxa bem menor, ao passo que o número de idosos está aumentando continuamente. Assim, o mecanismo demográfico não irá mais contribuir para a nossa renda per capita.
O salário-mínimo também aumentou muito em termos reais entre 2005 e 2015. Um casal com uma filha, com ambos os cônjuges ganhando um salário-mínimo, estaria no grupo de classe média baixa em 2005, mas passaria para a classe média em 2015, mesmo que o número de filhos e demais fatores tivessem permanecido constantes. Além disto, a escolaridade aumentou bastante no período, com a parcela de pessoas com nível superior passando de 9% em 2005, para 15% em 2015 e 20% em 2025.
Não será mais possível replicar as condições de aumento da renda sem crescimento de produtividade
Os salários de quem tem ensino médio ou ensino superior permaneceram basicamente constantes nos últimos dez anos, de forma que o diferencial de salários no ensino superior com relação a ensino médio continuou praticamente inalterado, em torno de 2 vezes e meia. Assim, o aumento da renda per capita veio principalmente do aumento da parcela de pessoas com nível superior. Além disto, a proporção de pessoas com trabalho continua a ser 10 pontos percentuais maior entre aqueles com ensino superior do que os que tem somente ensino médio, mesmo após a grande expansão com ensino à distância, o que sugere que ainda vale muito a pena cursar faculdade.
O grupo de classe média alta, que ganha mais de R$ 3.000 por mês por pessoa, também aumentou neste período, passando de 8% em 2005 para 14% em 2015 e 19% em 2025. A grande questão política do momento é que a ascensão social que ocorreu nos últimos 10 anos foi bem menor do que a que ocorreu entre 2005 e 2015. Os grupos que ascenderam socialmente nos anos 2000 querem continuar ascendendo às mesmas taxas daquele período inicial. Aqueles que passaram da pobreza para a classe média baixa querem ir para a classe média, e quem passou para a classe média quer ir para a classe média alta. Os mais jovens, que já nasceram com o programa bolsa família em vigor, não irão dar votos pela simples manutenção do programa. Eles querem oportunidades para ganhar maiores salários, sem pagar impostos, nem carteira de trabalho, nem chefe, como conta-própria ou MEI.
O problema é que não será mais possível replicar as condições daquele período sem crescimento de produtividade. Será difícil continuar aumentado o valor do salário mínimo e as transferências de renda em termos reais, devido às restrições fiscais. A dívida pública está aumentando sem parar, o que tem efeitos sobre a taxa de juros, que prejudica o crescimento. A redução da natalidade está desacelerando, assim como o aumento da porcentagem de pessoas com ensino superior. Assim, não haverá como o próximo governo manter os mecanismos que aumentaram a renda no passado. Estes mecanismos estão esgotados.
Não haverá escapatória: teremos que aumentar a produtividade, reduzir muito os subsídios e benefícios fiscais, abrir mais a economia, aumentar a qualidade da educação e reduzir os incentivos para o Simples e os MEI e as emendas parlamentares. O grande nó da questão é como o novo governo fará para convencer o congresso a implementar estas medidas. Deixo esta resposta para os cientistas políticos.
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