Muito tarde, muito pouco, provavelmente lorota

Alexandre Schwartsman

Estadão

Acenos de ajuste fiscal da equipe econômica são risíveis

Nas últimas semanas temos visto certo esforço por parte dos ministros da área econômica para sinalizar com a possibilidade de um ajuste fiscal; a partir de 2027, bem entendido, porque, convenhamos, agora há uma eleição a disputar.

Alguns balões de ensaio foram lançados – e devidamente abatidos – como a desvinculação dos benefícios sociais do salário-mínimo. Fala-se também em reduzir o ritmo de crescimento hoje permitido pelo não-tão-novo arcabouço fiscal, dos atuais 2,5% ao ano acima da inflação para 1,5% ao ano.

Já o ministro do Planejamento promete um superávit primário de verdade, sempre, é claro, no ano que vem. Não por acaso, o próprio presidente Lula o apelidou de “mágico”, basicamente por encontrar recursos para gastar, certamente não para melhorar as contas públicas.

Confesso que me espanto com a repercussão destas falas, ou, mais especificamente, que alguém ainda as leve a sério. Não falamos aqui de propostas vindas de quem estava na oposição a tudo isto que está aí, mas de partícipes (cúmplices?) de todas as decisões de política fiscal adotadas nos últimos 3 anos e 8 meses.

Neste período, entre 2022 e os 12 meses encerrados em junho deste ano, a despesa do governo federal aumentou R$ 429 bilhões, já corrigida pela inflação, superando por larga margem o crescimento da receita líquida de transferências, R$ 299 bilhões. O gasto total cresceu 20% acima da inflação no período, bem acima, aliás, do limite estabelecido pelo arcabouço, motivo pelo qual nenhum economista, ou melhor, nenhuma pessoa com o conhecimento básico de aritmética pode ser seduzida por promessas de regras supostamente mais duras.

Dito de outra forma, tiveram este tempo todo para provar suas credenciais na área e o fizeram; apenas com o sinal trocado.

Neste sentido, a ideia de reduzir o ritmo de crescimento permitido pelo arcabouço é risível. Como notado acima, a proposta já fracassou, exatamente pelos motivos que levarão ao fracasso no futuro. Sem um plano para conter a evolução das despesas obrigatórias, que crescem a mais de 2,5% ao ano, simplesmente não há como resolver o problema. Daí as inúmeras exceções que caracterizaram a política fiscal no período.

Sejamos, porém, sinceros. É bastante provável que não queriam fazer sequer isso. Os acenos de hoje representam apenas uma tentativa, algo canhestra, de convencer uns tantos eleitores de centro a votar no presidente.

Como dizia Otto von Bismarck, “nunca se mente tanto quanto em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça”.

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