Porém, nosso turismo nacional e internacional ainda é limitado
Por Pedro Passos, Guilherme Passos e Flávia Matos
Valor
Recentemente em uma palestra sobre o livro Brasil no Espelho, o autor Felipe Nunes, em uma síntese de como o brasileiro descreve o nosso país, resgata o famoso verso de Jorge Ben Jor: “Moro/ Num país Tropical/ Abençoado por Deus/ E bonito por natureza”. Nada poderia ser mais preciso para retratar este povo que tem fé, admira as belezas do seu país e transmite alegria.
Que a música nos faça lembrar sempre de quem somos e de onde vivemos, afinal o país de Jorge Ben Jor é a maior potência ambiental do planeta e tem potencial para liderar o turismo de natureza no mundo. Seus parques naturais protegem essa biodiversidade única. Os números não deixam dúvida.
Mais de 20% de todas as espécies do mundo estão aqui. São seis biomas e o ambiente marinho que abrigam mais de 600 parques naturais, entre eles 238 parques estaduais e 76 nacionais, 23 considerados Patrimônios Mundiais da Unesco.
O contato com esses parques traz inúmeros benefícios para a saúde física e mental e para o bem-estar humano, com oportunidades de contemplação, lazer, enriquecimento cultural, aventura e recreação ao ar livre. Esse que pode ser chamado de ecoturismo também desperta a consciência ambiental.
Mas ainda hoje, o turismo no país é limitado, por exemplo, pelo desafio de coordenação entre órgãos, pela pouca infraestrutura de acesso aos destinos de natureza e pela promoção ainda tímida dos nossos parques naturais em nível nacional e internacional.
Nas últimas décadas, países que compreenderam o valor estratégico de seus parques naturais avançaram com rapidez. Costa Rica, Chile e África do Sul transformaram o turismo de natureza em vetor econômico e atributos da sua marca-país.
O turismo nos parques do Brasil pode ser uma ferramenta efetiva para a promoção da conservação e geração de impacto socioeconômico, especialmente para comunidades do entorno. Evidências na literatura nacional e internacional apontam que o ecoturismo pode contribuir significativamente para conservação ambiental quando aliado a mecanismos de governança, fiscalização e participação comunitária. E, na prática, os 13,6 milhões de turistas que hoje visitam os parques nacionais podem se tornar, até 2030, 20 milhões e movimentar cerca de R$ 20 bilhões na economia brasileira por ano.
Nos últimos anos, reconhecemos que houve avanços importantes para o turismo de natureza no Brasil, como a criação de rotas turísticas de aventura e as parcerias com o setor privado para melhoria da infraestrutura dos parques e oferta de serviços aos visitantes.
Exemplo de sucesso é a Rota das Emoções, criada em 2005, que conecta mais de 500 km entre Maranhão, Piauí e Ceará, integrando os parques nacionais de Jericoacoara e Lençóis Maranhenses, que ocuparam, respectivamente, a 3ª e a 6ª posição entre os parques nacionais mais visitados do país em 2025. Seguindo essa boa prática, foi lançada recentemente a plataforma Natural Parks, disponível em português, inglês e espanhol, e que inclui sete roteiros para conhecer parques e unidades de conservação por todo o Brasil. Esse trabalho é fruto da cooperação entre Embratur, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério do Meio Ambiente, Ministério do Turismo e nós do Instituto Semeia. O objetivo é democratizar informações sobre novas rotas para brasileiros e estrangeiros, e, com sorte, replicar o sucesso e impactos positivos da Rota das Emoções.
Outro caminho vem do avanço das parcerias com o setor privado. Hoje, metade dos parques do Brasil não possuem infraestrutura mínima para receber visitantes, a exemplo de banheiros e bebedouros. Por isso, a atração de investimentos privados para melhoria de infraestruturas e gestão da visitação tem um papel estratégico para endereçar esses desafios. Até 2010, havia apenas 7 contratos de concessão em 3 parques nacionais. Em 2025, atingimos 39 contratos de concessão vigentes em parques. Eles somam um valor total de R$ 2,7 bilhões em investimentos previstos entre 2010 e 2052, representando mais qualidade de serviços para os turistas e mais oportunidades para as comunidades do entorno.
Mas ainda temos mais a fazer: o que está em jogo, além de ampliar o número de visitas nos parques, é integrar turismo, meio ambiente e economia em uma estratégia coordenada. Também estruturar fundos dedicados à visitação em unidades de conservação, como já autorizado pela Lei 15.180/2025 e estabelecer metas para o crescimento responsável do número de visitantes alinhado aos planos de manejo e uso público dos parques.
Profissionalizar o ecoturismo também é essencial. Segurança, qualificação técnica e capacitação das comunidades tradicionais e moradores do entorno são condições básicas para que o turismo fomente empregos, geração de renda e inclusão social. Afinal, quando bem estruturado, o turismo de natureza cria um círculo virtuoso: conserva, gera renda e fortalece identidades locais.
Por fim, para transformar os parques do Brasil em motivo de orgulho, vamos precisar construir e reforçar vínculos com os brasileiros. Órgãos como o ICMBio, por meio de seu voluntariado, e campanhas nacionais como o Um Dia no Parque mostram que é possível mobilizar a sociedade em torno da conservação e da valorização de nosso patrimônio natural. Internacionalmente, podemos nos inspirar em iniciativas como o Junior Ranger (Guarda-parque mirim) e o Programa Every Kid Outdoor (Todas as Crianças ao Ar Livre), que proporcionam às crianças e aos jovens norte-americanos a oportunidade de vivenciar parques nacionais, florestas e refúgios de vida selvagem, de forma divertida e educativa, com apoio de mascotes carismáticos como o Zé Colmeia e o Urso Smokey.
Em um país em que 45% da população afirma que a natureza é seu principal motivo de orgulho de ser brasileiro, nos valer de políticas públicas para transformar os parques em vetores de desenvolvimento é também investir em legado, bem-estar e identidade nacional. De norte a sul, nossos parques fazem o Brasil ser o que é. E nos permitem conhecer, reconhecer e proteger “os muitos Brasis” que somos, sempre bonitos por natureza.
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