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O Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), um centro de estudos que reúne economistas e especialistas de outras áreas do conhecimento, decidiu colocar um foco maior em temas como valores democráticos e equidade – entendido como reduzir privilégios também no setor privado – na sua agenda de propostas que costuma apresentar nos anos de eleições presidenciais.

Não que esses assuntos fossem menos importantes nas edições anteriores, mas ganharam maior relevância diante do clima de polarização política e com a pandemia. O documento está na fase de discussões e deve ficar pronto ainda neste ano, em tempo de subsidiar o debate de 2022.

“A ideia é oferecer uma agenda que volte a nos empolgar com o futuro”, afirma o ex-presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, que está envolvido na organização das propostas. “Buscaremos uma agenda sem extremos, com base em valores democráticos, que una o país, para oferecer a quem queira governar para todos os brasileiros.”

Além de Ilan, o CDPP tem entre os seus associados economistas como o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore e ex-diretor do BC Mário Mesquita e executivos como José Berenguer, da XP; José Olympio Pereira, do Credit Suisse; Pedro Moreira Salles, acionistas do Itaú Unibanco; e Luis Stuhlberger, da gestora de recursos de terceiros Verde.

Segundo Ilan, o CDPP não está trabalhando na construção de uma candidatura de centro. “Somos uma instituição sem partido”, afirma. Ele pondera que, individualmente, alguns membros podem atuar politicamente pela candidatura de um nome ou de outro. O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, um associado da CDPP, é um dos que têm se movimentado, em torno da possível candidatura do apresentador Luciano Huck.

O Valor conversou com alguns associados do CDPP, que manifestaram apreensão com a possibilidade de uma polarização das eleições de 2022 entre o presidente Bolsonaro e o ex-presidente Lula – a maioria prefere uma candidatura única de centro. Mas o CDPP, como instituição, quer estar preparado para oferecer as propostas a todos. “Construímos a agenda para ser adotada por quem achar que vale”, diz Ilan.

As linhas gerais são alavancar o crescimento, reduzir os privilégios, proteger os vulneráveis, manter a estabilidade fiscal e monetária. E também propiciar estabilidade jurídica e direcionar o Estado para cuidar bem da saúde, educação, meio ambiente, segurança e outros bens públicos.

Um dos temas que devem ser aprofundados das discussões de grupos temáticos é a maior equidade na tributação. O princípio é que pessoas com a mesma renda, com situações semelhantes, paguem impostos da mesma forma, reduzindo privilégios. A questão é em que impostos mexer e de quem cobrar mais.

Uma das propostas de governo mais bem sucedidas foi a agenda perdida, de 2002, que teve a contribuição de economistas que hoje integram o CDPP, como Pastore, Samuel Pessoa e Naércio Menezes Filho. Um dos seus idealizadores, o economista Marcos Lisboa, levou alguma das ideias para o governo Lula, onde foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

O próprio CDPP preparou uma agenda semelhante em 2014, com o título “Sob a Luz do Sol”. Joaquim Levy, autor do texto sobre política fiscal, incorporou propostas no segundo governo Dilma, de quem foi ministro da Fazenda por um curto período. Mais tarde, o Ilan entrou no governo Temer, à frente do BC.

Por experiência própria, ele diz que essas propostas são um bom ponto de partida para tocar a agenda do governo. “Quando senta na cadeira, não tem tempo para discutir tudo, partir do zero”, afirma ele. “Tem que estar pronto para partir para a ação.”

O CDPP preparou outra agenda em 2018, mas o ministro da Economia, Paulo Guedes, desenhou o seu próprio programa com um grupo de economistas liberais. Soluções desenhadas pelo centro de estudos, porém, subsidiaram discussões dentro do Congresso.

Link da publicação: https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/04/08/buscaremos-agenda-com-base-em-valores-democraticos.ghtml

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.