No aniversário do jornal, nomes de vários campos analisam o impacto das transformações tecnológicas, geopolíticas, ambientais e os grandes desafios sociais contemporâneos
Valor
Quais são os grandes dilemas do mundo contemporâneo? Como podemos enfrentá-los? Nesta edição comemorativa de seus 26 anos, completados no sábado, dia 2 de maio, o Valor publica as reflexões de 15 personalidades brasileiras a respeito dessas questões. Os participantes reúnem trajetórias variadas, com atuação destacada nos campos das ciências, saúde, economia, meio ambiente, educação, cultura, setor empresarial e terceiro setor.
As análises são assinadas por Ailton Krenak, Candido Bracher, Carlos Nobre, Djamila Ribeiro, Eduardo Giannetti, Edvaldo Santana, Elisa Lucinda, Horacio Lafer Piva, Ludhmila Hajjar, Margareth Dalcolmo, Maria Homem, Mariângela Hungria, Oscar Vilhena, Roberto Rodrigues e Silvio Meira.
Os comentários trazem as singularidades dos pensamentos, mas também uma leitura em comum: a de que vivemos profundas transformações provocadas pela inteligência artificial e pela emergência climática, além das dificuldades de orquestrar respostas eficientes na velocidade necessária que o tamanho desses desafios demanda.
Outro ponto de atenção realçado é a mudança da ordem mundial — o que virá no lugar de instituições globais enfraquecidas, como a Organização das Nações Unidas (ONU), hoje incapaz de frear as guerras? Há, ainda, alertas sobre como lidar com os graves problemas da desigualdade social, com o dramático quadro de violência contra as mulheres, com a insegurança alimentar que nos assombra e também com o futuro das novas gerações.
Em conjunto, os textos presentes nesta edição oferecem um diagnóstico dos desafios que marcam o nosso tempo e sinalizam caminhos possíveis para enfrentá-los. Essas reflexões, que representam a pluralidade do pensamento contemporâneo brasileiro, reforçam o compromisso do Valor com a promoção de ideias que contribuam para a construção de um futuro melhor.
Qual é o grande dilema da contemporaneidade e como enfrentá-lo?
“Isoladamente, nenhum país conseguirá enfrentar desafios que, por definição, são globais. O mais urgente deles é o aquecimento global.”
Candido Bracher
Estamos vivendo um período de ruptura da ordem global. A queda do Muro de Berlim foi um marco histórico que abriu caminho para a globalização, a liberalização econômica e a intensificação dos fluxos comerciais. Foi também um período em que ONU, OMC, FMI e outras instituições ganhavam protagonismo. É essa ordem que começa a ruir. Em seu lugar, vemos emergir uma lógica em que os países buscam proteger, de forma mais isolada, os próprios interesses. Isso aparece com clareza na atual gestão dos EUA, que tem um papel relevante nesse movimento. Mas não se trata de um fenômeno restrito aos EUA. O problema é que, isoladamente, nenhum país conseguirá enfrentar desafios que são, por definição, globais.
O mais urgente deles é o aquecimento global. Todos os países buscam alternativas ao petróleo e soluções de energia mais limpa, ainda mais em um contexto de guerra, que afeta preços e escapa ao controle nacional. Esse movimento já está em curso, mas ainda aquém da velocidade necessária. Com uma articulação global mais efetiva para o controle das emissões, esse processo seria não apenas mais rápido, mas também mais seguro. O que me dá esperança é a capacidade que a humanidade tem de responder às dificuldades e, ao longo do tempo, encontrar caminhos para superá-las.
“Tomando o mundo como cenário e o século XXI como horizonte, três dilemas desafiam a humanidade: o ambiental, o tecnológico e o geopolítico.”
Eduardo Giannetti
Tomando o mundo como cenário e o século XXI como horizonte, três dilemas desafiam a humanidade: o ambiental, o tecnológico e o geopolítico. Eles estão ligados. O dilema ambiental é como enfrentar o agravamento da crise climática sem sacrificar as liberdades individuais nem as aspirações legítimas dos 3,5 bilhões de habitantes que respondem por 5% das emissões globais e estão na base da pirâmide de consumo (metade sem acesso à eletricidade). Além de ciência e tecnologia, a solução exigirá uma profunda correção do sistema de preços de modo a internalizar os custos ambientais das nossas escolhas. A inteligência artificial embute promessas e ameaças. O grande dilema é como compatibilizar o avanço da IA sem incorrer nos riscos de segurança e nos efeitos perversos (desemprego e piora da desigualdade). A resposta demandará um processo de aprendizado: regulamentação calibrada e instituições capazes de garantir o bônus da produtividade sem o ônus da exclusão social. O dilema geopolítico decorre do confronto entre a potência americana em declínio e a potência emergente chinesa. O desafio é evitar que a rivalidade termine em guerra. A solução seria a criação de uma autoridade supranacional capaz de arbitrar disputas e se fazer respeitar pela comunidade das nações. Difícil, porém, imaginá-la, pelo menos enquanto durar o atual governo dos EUA.
Link da publicação: https://infograficos.valor.globo.com/especial/grandes-dilemas-contemporaneos-na-visao-de-15-personalidades.html
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